Cesares Underground Comix Freak Show


14/03/2012


Ato de Violência

Film Noir. Quem me conhece de verdade sabe que esse é o meu gênero favorito. O que pode ser mais cativante do que a crueza dos romances policias da época da Grande Depressão a partir do ponto de vista daqueles grandes diretores influenciados pela sombria estética do expressionismo alemão? Para mim, esses filmes são a melhor representação de uma época em que os maiores ídolos do cinema apareciam em filmes com roteiros de Chandler ou Hemmingway, sem méritos periféricos como efeitos 3D ou formato imax, o único mérito era qualidade pura e simples; a espirituosidade dos diálogos, o poder das cenas, a força dos enredos...

 Recentemente fui introduzido a uma legítima pérola do gênero: Ato de Violência, de 1948, dirigido por Fredd Zinnerman, mais conhecido pelo imortal faroeste Matar ou Morrer. O enredo é simplesmente maravilhoso, é uma representação magnífica da guerra e suas conseqüências, ignora ao máximo o típico maniqueísmo Hollywoodiano da época. Trata-se de um filme dirigido por um homem que escapou da Áustria ocupada pelos nazistas, onde seus pais pereceram...É uma análise intrínseca do sentimento de culpa pelo simples ato de sobreviver, um suspense intenso sobre um homem que retorna de um campo de prisioneiros da segunda-guerra, e depois de alguns anos vivendo pacificamente como civil, vê-se então em uma situação desesperadora onde o seu passado retorna para atormentá-lo...É um questionamento ético, é uma viagem melancólica sobre a América pós-guerra, é quase como um Cão Vadio (refiro-me ao filme de Kurosawa de 1949) ocidental.

  As atuações de Van Heflin e Robert Ryan são impecáveis, a participação de Mary Astor é visceral! A construção das personagens femininas é tão magistral quanto a dos protagonistas, os dois homens sufocados de ódio, sufocados pela guerra! Céus, o final é de tirar o fôlego!

Escrito por Cesare Le Grotesque às 20h51
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Foda-se a adobe.

  É por isso que não tem desenhos novos aqui.

Escrito por Cesare Le Grotesque às 20h17
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Opera

   Não é por pouco que Dario Argento é um dos mais conceituados diretores não apenas dos filmes de terror, mas da Itália em si. Com uma capacidade de transformar a direção de câmera em uma coreografia artística de forma magnífica, sempre acompanhada por uma belíssima direção de arte (Suspiria que o diga) e a muitas vezes inspirada trilha sonora da banda Goblin, ele manteve o trabalho de Hitchcock: de elevar as mais simples histórias de suspense ao mais alto nível da arte. No entanto, mesmo que ele tenha feito filmes da potência de Giallo, ele não escapa do estigma do filme B. Nesse fim de semana assisti, depois de muita dificuldade para sincronizar a legenda e muito expectativa, Terror na Opera.

  Os primeiros dez minutos do filme de deixaram pasmo. Estava tudo lá, a maestria com a direção, a bela fotografia, as mortes desnecessariamente sangrentas; a atuação podia não ser das melhores, mas eu tinha de considerar que era um filme italiano porcamente dublado em inglês!  Meia hora se passou, já estava contando os minutos com os dedos...Puta filme chato.

 O roteiro vai de mal a pior, de uma cantora de ópera perseguida por um misterioso serial killer, temos uma reação muito estranha da personagem principal quanto aos assassinatos, uma certa indiferença não intencional, fruto ou da má atuação ou da má dublagem, até chegarmos em uma trama que muito lembra uma criança de 14 anos tentado imitar o Nelson Rodrigues.

  Esse não é o único filme desse mestre do horror que me decepcionou, Jogador Misterioso é excepcionalmente ruim e Voce Tem Medo de Hitchcock, que eu vi na minha pré-adolescencia quando nem sequer conhecia a importância do nome Dario Argento; embora seja uma divertida homenagem ao cineasta anglo-americano, não faz jus a excelência do italiano. Àqueles que ainda não foram introduzidos às obras desse mestre, devo discordar da maioria dos cinéfilos que recomendariam Suspiria.  Por mais que esse clássico seja pura arte, infelizmente não é mais tão chocante quanto era em 1977...Nesse caso recomendo então Giallo – Reféns do Medo, o visceral suspense de 2009 que me convenceu da legítima qualidade desse grande ator que é Adrien Brody.

Escrito por Cesare Le Grotesque às 20h00
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10/03/2012


Falece Moebius, o Gênio!

 Quando eu tinha cerca de 12 anos de idade, meu mundo foi chacoalhado pela intensidade, pela loucura, pela ousadia do longa Heavy Metal. A trilha sonora somava algumas das mais notórias bandas de rock da década de 80 com as belíssimas composições de Elmer Berstein. As poderosas imagens de templos exóticos erguidos para venerar deuses alienígenas, de sensuais mulheres delineadas por excelentes desenhistas e de monstros grotescos claramente saídos de uma imaginação perturbada eram, para um mero juvenil, de derreter o cérebro.

  Fato era que o longa canadense de 1981 reproduzia o espírito da revista homônima, que era, por sua vez, uma reedição norte-americana de Metal Hurlant, uma das mais memoráveis publicações da história dos quadrinhos franceses. Focada em um publico puramente adulto, Metal Hurlant trazia desenhos complexos, narrativas cinematográficas e enredos surreais que oscilavam da fantasia ao terror; seguindo o exemplo da lendária Cripta (Eerie, publicada de 1966 até 1983), onde o único limite era a ilimitada imaginação daquela coletiva de grandes artistas que atendia pelo nome de "Les Humanoïdes Associés" (Os Humanóides Associados).

  Foi com um pesar imensurável que li nas notícias hoje sobre o falecimento de um desses grandes nomes, Jean Giraud, mais conhecido pelo nome artístico “Moebius”. Ele foi muito mais do que um grande ilustrador, ele foi um legítimo artista, uma mente que nunca temeu sonhar, que não apenas me trouxe admiração e respeito, mas também inspiração. Fosse ao infalível traçado das suas hachuras ou na suavidade de sua ligne claire, ele transformava tudo o que tocava em uma obra-prima, as vezes pela sua exuberância as vezes pela exuberância de sua simplicidade.

 Aclamado até mesmo por Frederico Fellini, Moebius foi o criador do famoso faroeste Blueberry (adaptado para o cinema em 2004), trabalhou com Alejandro Jodorowski  no clássico Incal (um dos mais importantes títulos da história da ficção científica nos quadrinhos, antecede a Saga dos Metabarões escrita por Jodorowsky e inspirou Luc Besson em seu Quinto Elemento), trabalhou para o cinema não só em filmes com atores de carne e osso, tais como Alien – O Oitavo Passageiro e Tron, mas também em animações como Les Maîtres du Temps e Little Nemo.  Moebius faleceu em Paris hoje, aos 73 anos de idade, vítima de câncer.

 O legado desse gênio que transformava traçados e pinceladas em pura poesia, que me acompanha indiretamente desde a primeira adolescência, permanecerá intocável, uma eterna fonte de inspiração para artistas de todas as gerações; passadas, presentes e futuras, ainda assim o seu falecimento não deixa de ser uma perda imensurável.

 

 

Céus, me tragam mais um copo de uísque. Que perda; mas que perda!

Escrito por Cesare Le Grotesque às 23h29
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04/03/2012


Le Locataire

 Roman Polanski, na infância, presenciou o exército alemão forçando os judeus de Cracóvia a viverem nos guetos, presenciou a deportação de seu próprio pai para um campo de concentração, presenciou a violência da ocupação nazista nas ruas, e ainda assim teve a capacidade de fazer um filme tão bem-humorado quanto Dança com Vampiros (que não tem um final tão bem-humorado assim, mas que seja); ao mesmo tempo, criou uma penca de películas lúgubres, entre muitas delas, O Inquilino.

  Lançado em 1976 (e se não estou errado, o primeiro filme que ele filmou na França), O Inquilino foi a fim da “trilogia do apartamento”, seguindo Repulsa ao Sexo e O Bebe de Rosemary. Estrelado pelo próprio Polanski em atuação magistral, trata-se de um thriller psicológico sobre um rapaz que se muda para um apartamento parisiense onde a inquilina anterior tentou suicídio atirando-se pela janela; no decorrer da história, ele vai assumindo a personalidade dela de forma doentia, quase como Norman Bates assume a personalidade de sua mãe. Começa com a curiosidade sobre a história da moça, logo,surgem os pequenos detalhes que o associam à identidade dela , por coincidência ele se senta no mesmo lugar em que ela sentava na lanchonete, por falta de opção fuma cigarros da marca que ela fumava, toma o achocolatado que ela tomava; os detalhes se tornam cada vez mais perturbadores, ele encontra o dente da moça em um buraco no apartamento, sofre a constante opressão dos vizinhos, enxerga coisas inexplicáveis... E assim Polanski evolui esses pequenos detalhes para um conto sobre as fraquezas (e horrores) da mente humana.

 Interpreto o filme não como um simples suspense sobre paranóia e esquizofrenia, mas como um filme sobre a perda da identidade em si.  Logo de cara vemos como o protagonista assume uma persona que não é a sua própria; ele é um polonês naturalizado francês como o próprio Polanski, que busca ao máximo se definir como francês, ainda assim os franceses não o aceitem como tal. As opressões constantes que ele sofre dos seus vizinhos e do dono do apartamento lhe tiram completamente a privacidade, a chance de estar sozinho consigo mesmo, e ainda o levam a agir de uma forma que não é própria de si, a ter de deixar de fazer o que quer para “não atrapalhar os vizinhos” (talvez uma metáfora para a necessidade das pessoas de agirem apenas de formas “socialmente aceitáveis”, vestindo máscaras que lhes tiram não apenas a liberdade de certas escolhas, mas também a identidade).

 O toque do diretor é quase hitchckockiano, alguns enquadramentos lembram muito Janela Indiscreta. A musica de Phillipe Sarde acompanha lindamente a atmosfera fúnebre do filme, soa como um réquiem para a sanidade, uma introdução ao labirinto de confusão e terror no qual seremos atirados nesse grande (e um tanto subestimado) clássico do cinema.

Escrito por Cesare Le Grotesque às 11h37
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02/03/2012


"My Master, We Are in a Tight Spot"

Esse post é sobre um dos jogos mais incomuns que já tive em mãos, o excêntrico Killer 7. Lançado em 2005 para GameCube e Playstation 2, trata-se de uma colaboração entre dementes Suda51 (No More Heroes) e Hiroyuki Kobayashi (responsável pelo mega-sucesso Resident Evil). Killer 7 foi um absoluto fracasso comercial, mas conquistou o título de “Cult underground” e, naturalmente, uma pequena legião de seguidores da qual faço parte.

 No post anterior comentei um pouco sobre algumas mídias que são desprezadas aos olhos de muitos intelectuais, críticos e toda essa gama de gente desalmada; claro que não é mais o caso da animação, os quadrinhos estão (lenta e) gradativamente superando esse problema, o mesmo pode ser dito dos jogos eletrônicos. Os jogos eletrônicos surgiram como uma forma de entretenimento extremamente simples, mas em uma piscar de olhos que durou cerca de trinta anos, o simulador bi cromático de pingue-pongue se transformou em gráficos de definição alta o suficiente para representar a realidade com uma perfeição quase que chocante. Se uma mídia tem tamanho potencial, logo surgem obras-primas.

  

   Dono de uma jogabilidade absolutamente única, é um “rail shooter” em que a única liberdade que os jogadores têm de se mover é através de um curso pré-estabelecido, podendo apenas escolher a direção e o sentido do movimento do personagem. Antes que você me pergunte o “porque diabos” de eu estar escrevendo a resenha de um jogo eletrônico, coisa que eu nunca fiz antes em todos esses anos de resenhas de filmes, lhe entrego a resposta de antemão: esse jogo é mais brilhante e bizarro do que muitos diretores conceituados pela supra-citada gama de insensíveis asnos poderiam jamais sonhar. O enredo tem a complexidade de um noir e a atmosfera perturbadora de um pornô gore, é um Takashi Miike com enredo à Graham Greene.

   A história se passa em uma versão alternativa do século XXI, em que o mundo atingiu a paz global de forma definitiva e todas as armas nucleares foram enviadas para o espaço-sideral. Nesse mundo, o Comitê Internacional de Ética erradica o uso público da internet e substitui o transporte aéreo por autoestradas intercontinentais para controlar pandemias, terrorismo e cyberterrorismo; a política japonesa é dominada pelo Partido das Nações Unidas e pelo Partido Liberal, sendo que o primeiro, cujo objetivo é acabar com o tratado de cooperação entre o Japão e os Eua, é muito mais influente.  No meio de uma crise crescente da relação entre os dois países (sendo que, nessa realidade alternativa os EUA enxergam o Japão como um país economicamente irrelevante) surge então uma nova onda de terrorismo em massa, um grupo chamado “Heaven Smile”, formado por pessoas infectadas por um vírus que lhes dá um insaciável desejo assassino e a bizarra capacidade de explodirem como bombas humanas (sim, você leu certo). Eles têm como alvo membros das Nações Unidas e do Comitê de Ética. A bizarra metafísica entra quando surgem os killer 7, um grupo de sete assassinos mortos que compartilham o mesmo corpo como se fossem personalidades alternativas, sendo que a personalidade dominante é o Garcian Smith, o sujeito com o poder de ressuscitar os mortos (enfiando a cabeça do vagabundo em um caixão e a eletrocutando) e enxergar fantasmas (tipo a cabeça decepada de uma serial killer que adora usar emoticons em suas histórias doentias, uma viciado em adrenalina obcecado por camisetas esportivas, um sujeito com traje de sadomasoquismo, um assassino de 12 anos que vive a sua pós-vida dentro dos seus próprio pesadelos, e nenhum deles realmente fala, eles resmungam de uma forma horrenda e só entendemos por causa das legendas). Cada personalidade possui uma arma diferente e um poder diferente, e eles são os únicos seres humanos capazes de matar os Heaven Smile, que com o  tempo evoluíram para seres invisíveis que só podem ser vistos através do terceiro olho de Garcian.

  O enredo é um verdadeiro delírio, um delírio que representa o princípio de que a política internacional não resolve todos os problemas do mundo, que o mal está nas estranhas da sociedade, e que para que a paz seja mantida é necessário utilizar a sujeira que será escondida do público, logo, a verdadeira paz é inatingível no ponto de vista dos autores desse roteiro. A história se foca, na verdade, no conflito entre Harman Smith, uma espécie de deus que age por trás dos Killer 7, e Kun Lan, a reencarnação de Mara Papisa, um demônio budista que perturba a ascensão espiritual, a paz...Eles são a destruição e a criação, a ordem eterna do universo, dois deuses opostos que praticam a violência por motivos opostos, a violência é a ordem das coisas, da condição humana, a violência de Heráclito, a violência que é a existência em si.

 O final é piração pura, uma crise de identidade de um cara que tem sete identidades, ver aquilo foi demais pra mim! E os diálogos são bons DEMAIS, como por exemplo, o dessa cena:

http://youtu.be/e6BmgK5s5to

 “Tentando morrer com estilo? Dá um tempo, seu velho doentio” – Dan Smith. E me perdoem, a caixa de edição do blog não me permitiu que eu deixasse as letras normais, tive que colocar o posto em negrito.

 

Escrito por Cesare Le Grotesque às 20h40
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Pulp

 Todas as artes, em toas as décadas dão origem a obras que se tornam seus grandes representantes. Mesmo os quadrinhos, uma das mídias que mais sofreram  com um menosprezo particularmente injusto ao longo da história tem, desde o começo do século XX, exemplos do seu grande potencial artístico por parte dos trabalhos de Winsor McCay. É necessária a existência de HQs como Little Nemo e Sandman (já na década de 80) para mostrar aos críticos que uma mídia é muito mais do que a indústria cultural apresenta; quadrinhos são muito mais do que roteiros sem sal sobre super-heróis rasgando os céus com seus vôos rasantes e atirando lasers naqueles que ameaçam o modo de vida americano; quadrinhos são histórias contadas a partir de uma seqüência de eventos gráficos, tal como o cinema, e por isso tem a mesmo potencial artístico que a sétima arte.

 A animação é quase tão antiga quanto o cinema em si, Fanstasmagorie de Emile Cohl data de 1918, e por muito tempo essa arte monopolizada pelos estúdios Disney, resultando no conceito pré-fabricado que tudo o que nela é produzido é “desenho para criança”. A democratização da animação tenha talvez sido iniciada pela chegada de algumas produções japonesas no ocidente, que via a animação de um forma maniqueísta; haviam as produções baratas e havia a Disney...Akira estava entre eles na quantidade de frames por segundo, alías, estava apenas um frame abaixo da Disney,e sem duvida conseguiu um resultado ainda mais realista. Quanto tempo levou-se para que fosse possível uma animação israelense ganhar uma estatueta de ouro por Melhor Filme Estrangeiro? Não é então a fluidez dos movimentos o ponto forte do filme a ser comentado nesse post: Planeta Fantástico, um exemplo perfeito de que paralelamente ao que sempre existiu no grande mercado cinematográfico sempre houve a legítima arte.

 

  Planeta Fantástico é uma produção francesa de 1973, e que graças a maestria da direção de René Laloux atingiu um status de “cult quase divino”. Baseado em um romance de Stefan Wull, uma dos maiores autores franceses de ficção científica pulp, Planeta Fantastico conta a história de uma sociedade em uma galáxia far, far away onde os seres humanos, aí chamados de oms, são escravizados pela raça dos draags. Os draags são seres tão colossais que perto deles os seres-humanos são praticamente formigas, e são tratados como tal. Os humanos são oprimidos pela sua incapacidade de expressão, pela sua falta de ciência;  são uma raça derrubada pelo que é sugerido como uma grande guerra ou desastre ocorrido na Terra (depois levados pelos draags para o seu planeta natal), uma raça animalesca, que não vive, apenas sobrevive. Os draags, que são incapazes de compreender a complexidade do espírito humano, dedicam-se à tecnologia e à espiritualidade (sendo que uma das suas atividades mais importantes é a meditação transcendental, necessária inclusive para a sua reprodução), vivem em conforto e não deixam de ter os mesmo sentimentos e desejos que os humanos, que eles consideram meras bestas, também tem.

 Logo no começo, temos uma mãe e seu filho recém-nascido sendo maltratados por uma criança draag que brinca com eles como uma criança humana brinca com um inseto. É uma cena forte, vemos o ser - humano prestes a ser destruído por algo infinitamente maior e superior a ele, algo como uma força da natureza, destrutiva e inconsciente do mal que causa. A criança draag acidentalmente mata a mulher, e o seu filho torna-se o mascote da jovem Tiva. Ela nomeia o rapaz de Terr, e seguimos então a trajetória do seu amadurecimento.

 Os draags adquirem conhecimento através de um aparato que insere informações em seus cérebros, e Terr acaba o utilizando quando tem a chance. Já adolescente, Terr decide fugir da casa de Tiva, e leva o aparato consigo; descobrindo então uma tribo de humanos que mais lembra um formigueiro...Terr os apresenta então a algo a muito esquecido: conhecimento, iluminação, ciência.

 À medida que os humanos adquirem conhecimento através do aparato dos draags, eles se engrandecem como sociedade. O filme, que logo de início mais parece lidar com a insignificância da vida humana, mas na verdade é uma ode à humanidade e ao livre pensamento. Lida com temas complexos sem ser godardiano, sem deixar um momento sequer de tornar o enredo interessante; Planeta Fantástico é uma aventura visual, um experiência surpreendente a cada momento.

 Obviamente o que me chamou a atenção antes de tudo foi a estética. Nisso o filme é de fato impecável. O fato de ser uma animação “devagar” não tira a beleza dos desenhos, das hachuras, dos volumes criados a partir de pintura manual, dos cenários e animais exóticos que habitam o planeta Ygam, do absoluto surrealismo proveniente de uma mente rica em imaginação puramente artística. Tudo no filme é impecável, a trilha sonora, composta pelo jazzista Alain Gorauguer, contribui de forma magnífica para a estética psicodélica e merece a atenção de qualquer uma que goste de rock progressivo.

  Planeta Fantástico conclui-se de uma forma não tão inesperada, mas não sem antes pincelar aqueles belos momentos de tensão que fazem um bom filme, massacrando todo o medo que eu tinha de me decepcionar. É imperdível, isso lhes garanto.

Escrito por Cesare Le Grotesque às 18h17
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01/03/2012


Deadgirl

    Filmes bizarros estão em toda a parte. A estética do grotesco, do degenerado, da escatologia gráfica banhada da mais pura repulsão a toda moralidade pré-estabelecida pelo cinema comercial se alastrou como uma pandemia. De Blood Sucking Freaks a Centopéia Humana, o “cinema de choque” tem talvez suas raizes nas entranhas das contra-culturas das décadas de 60 e 70, uma violência visual emergindo nos cinemas baratos como uma perfeita representação da violência das rupturas culturais da época. Mas e quando o cinema comercial começa a abandonar o seu próprio código moralista?

 Violência vende. Sexo mais ainda. Sexo e violência são minas de ouro. As gerações atuais vivem a realidade que foi construída a partir das gerações passadas, nasceram em um mundo oposto àquele dos dogmas aos quais seus pais se rebelaram, apenas os puritanos mais ortodoxos protestam quanto a emergente agressividade no cinema. A banalização da violência agora é aceitável, mas na Roma antiga não eram os centuriões e gladiadores que eram aclamados como heróis pelo povo? Na década de 30, Howard Hughes precisou de um final alternativo para o seu Scarface, hoje em dia filmes sem roteiro nem direção, apenas tortura física explícita entram normalmente em circuitos de cinema. Note que não estou falando “daqueles” filmes, como August Underground e Slaughtered Vomit Dolls, falo de filmes produzidos pela grande industria cultural mesmo, mas...Que fruto dessa indústria tem roteiro ou ao menos um pingo sequer de perspicácia?

 O filme dessa semana é Deadgirl, não, não aquele de 2006 com a Britanny Murphy, mas aquele de 2008,sabe qual? É, esse mesmo, aquela produção “indie” sobre um grupo de adolescentes que encontram uma garota no porão de um hospital psiquiátrico, uma garota...Bem...Morta, mas viva. É o tipo de coisa que faz eu questionar a minha saúde mental, boa parte dos comentários sobre o filme no IMDB apontam o quão ele é perturbador, tudo bem assistir uma coisa dessas com tanta indiferença? Mas convenhamos, o Deadgirl tem a sua ousadia. Não vou revelar muito sobre o enredo, mas basicamente desenvolve-se a partir do momento em que os rapazes decidem torná-la seu objeto de diversão sexual. O zumbi não é o monstro do filme, os estupradores que são.

 Deadgirl lida com uma juventude sem perspectiva, jovens proletários fadados ao eterno estigma social, lida com o fracasso, a frustração que provém do conformismo, mas acima disso, lida com a crueldade humana. Há uma cena, não vou entrar nos detalhes para não estragar o filme, em que logo depois da morta-viva praticar uma das castrações mais desconfortáveis que eu já vi em um filme (talvez perca só para a do Cruz de Ferro), ela revela que não é só mais uma duplicata dos zumbis de Romero, ela não ignora a dor a medida que é degradada e humilhada, ela não um objeto simbólico, um simples “plot device”, ela apenas uma vítima de estupro,mas que se recusa a morrer.

 Ainda assim, Deadgirl não é nenhum filmaço. Como tornar o filme convincente se absolutos perdedores são representados por atores bonitos? Uma escolha quase tão ruim quanto colocar Won Bin no papel do protagonista de Mother. Como tornar Deadgirl um filme verdadeiramente visceral se ele se rende a clichês? Potencial desperdiçado? Talvez. Cenas bem dirigidas? Não diria que não, mas nada marcante, nem fotografia nem nada. Atuação? A desconhecida Jenny Spain no papel da morta-viva (que lhe rendeu a nomeação de Scream Queen do ano). O filme não escapa de uma certa mediocridade, mas que entra em conflito com alguns momentos ótimos e com a originalidade do roteiro.

 Céus, ter ficado quase um ano sem postar aqui me fez esquecer o quão infernais são essas fontes de texto.

           

Escrito por Cesare Le Grotesque às 21h03
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18/07/2011


Cowboys & Zumbis

  Meses se passaram, o numero de posts desse ano é tão escasso quanto o numero de pessoas que lêem esse blog em todos os seus deploráveis éons de existência. Vi muitos filmes interessantes de se comentar, desde o horrível Terror nas Trevas (...E Tu Vivrai nel Terrore! L'aldià, 1981), do suposto "mestre" do terror italiano Lucio Fulci, ao surpreendentemente divertido As Múmias do Faraó (2010), de Luc Besson, baseado na série de quadrinhos franco-belgas de Jacques Tardi (que descobri em um sebo tão por acaso que quase me senti o Tintin quando encontrou uma das réplicas do Licorne em uma feira em Bruxelas). Foram feitas páginas de uma história interminada de 30 (comentada no primeiríssimo post de Março, aonde foram publicados os horríveis, deploráveis, medonhos desenhos que serão ainda refeitos) , pin ups (que deveriam acompanhar um post sobre o maravilhoso anime Darker Than Black) foram jogadas fora, romances foram lidos, porres foram tomados, discos de bandas obscuras de rock psicodélico foram ouvidos e tudo continuou em seu lugar...E o ócio (procurei alguma desculpa esfarrapada para me explicar melhor, mas fiquei com preguiça de achar) fez com que esse Blog ficasse cheio poeira, teias de aranha e odor de abandono.

 Sendo que, junto com a lindíssima animação francesa O Mágico (2010) de Chomet, o corretamente badalado Rastros de Justiça (2009) e o delicioso festival de violência O Homem de Lugar Nenhum (2010), os filmes anteriormente citados serão comentados, estou na verdade abrindo esse post apenas para dizer uma coisa: George A. Romero chuta bundas...Com tanta força que você pode ficar meses sem andar.

  Para mim, Romero não chegou a dar exatamente uma palestra sobre criatividade quando A Noite Dos Mortos-Vivos foi lançado em 1968, já que quatro anos antes Vincent Price estrelou O Último homem Sobre a Terra, em que, por causa de uma doença trazida por morcegos, pessoas se transformam em vampiros insaciáveis e causam um apocalise não muito diferente do qual zumbis causaram em vários filmes do nova-iorquino e de muitos outros diretores...Independente disso, é indiscutivel a origem desses seres pútridos, vis, escatológicos e queridos por todos, já que antes de Romero ninguém pensou no fato de mortos são destruidos atraves de tiros na cabeça, e não estacas no coração (é sério gente, o Van Helsing nunca quis me escutar). É difícil dizer o motivo pelo qual tais criaturas causam tanto facínio na cultura pop, mas existem tantos filmes, games, quadrinhos e até mesmo romances que trazem aquela velha história sobre pessoas fazendo de tudo para conseguir sobreviver em um mundo tão terrível que até mesmo os mortos ressucitam que naturalmente toda possibilidade de ser criativo começa a ruir. Quando se foi criativo, se foi excêntrico, como em Dellamore Dellamorte (1994), A Volta dos Mortos Vivos (1985) e Fido (2006). Como se utilizar do mito dos mortos-vivos para se fazer uma boa história sem precisar usar humor negro ou situações surreais ? The Walking Dead apostou no desenvolvimento dos personagens de forma inteligente, em uma certa realidade somada a um realismo cru...E A Ilha dos Mortos (2009), o Romero em pessoa retornou ao que de fato era o seu clássico de 68: uma análise a respeito da violência cometida por seres-humanos a outros seres-humanos, em uma situação na qual todos estão a mercê de uma incontrolável, devastadora força da natureza caracterizada através da aterradora idéia de mortos que andam (primeiramente representando os horrores da ameaça nuclear,e agora a simples poesia da miséria humana).

 A Ilha dos Mortos conta a história de um grupo de soldados que, como em quase todos os filmes do gênero, procuram uma ilha aonde possam viver pacificamente nesse mundo terrível, mas dessa vez a ilha não é aonde o enredo encontra sua conclusão, e sim aonde ele se desenvolve. Nossos heróis se envolvem em um conflito causado por convicções divergentes de dois homens com poder o suficiente para conseguir homens armados e destruir o pouco que ainda resta de vida no mundo. Um legítimo faroeste com zumbis, um crossover de Romero com John Ford criado pelo próprio Romero, uma amostra do que aconteceria se o roterista de The Walking Dead fosse Garth Ennis, um espetaculo imperdivel não só para quem gosta de filmes do gênero, mas simplesmente para quem procura um bom cinema! Não temos nenhuma cena nem nenhuma atuação que nos marque para o resto da vida, mas o roteiro sóbrio nos traz diálogos bem contruídos entre personagens bem contruídos. Por mais que a história seja fantasiosa, tudo é palpável, crível, isso que deu a força ao The Walking Dead e isso mais uma vez dá a força a um filme ainda mais cru. Pode não ser nenhum Robocop, mas os tiroteios (que ocorrem enquanto multidões de mortos vivos estripam e devoram jagunços) são adoráveis! O indiferença que os personagens têm quando matam zumbis pode não ser tão poética quanto o prazer que Francesco Dellamorte têm com a sua colt, mas não deixa de ser um elemento divertido!

  Recomendo esse filme enquanto me contorço de raiva por ter assistido o trailer do Dylan Dog, depois dessa e do desenho animado do Martin Mistère vou começar a praticar atos de terrorismo com quem quer que seja que quiser adaptar um gibi da Bonelli de forma idiota...

 

 

Escrito por Cesare Le Grotesque às 21h26
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25/05/2011


Filme de...Terror?

 Pode-se dizer que o meu blog é consideravelmente "desatualizado". Quando o assunto é cinema, ao invés de postar resenhas dos ultimos lançamentos, simplesmente comento o que me chamou a atenção, independente de quando foi lançado. Pois bem, todo mundo já falou sobre atividade paranormal (2007), agora é a minha vez...Que o impiedoso escárnio comece.

 A idéia de se fazer filmes de terror em terceira pessoa, a partir do ponto de vista de uma câmera caseira, é um conceito introduzido às telas em 1980, pelo italiano Ruggero Deodato no inigualável clássico Holocausto Canibal. A Bruxa de Blair (1999) reergueu o conceito quase 20 anos depois, e agora com  Cloverfield (2008) E REC (2007), a idéia está tão na moda que foi usada até pela infame produtora The Asylum. Na internet, canais como Marble Hornet publicam vídeos aparentemente filmados em lugares desolados, aonde evidências de grotescos monstros percorrendo os cenários surgem quando menos se espera. O próprio mestre Romero transportou os seus icônicos zumbis para essa mídia pseudo-documental! Afinal de contas, o que pode ser mais aterrador do que quando o macabra ficção toma um caráter supostamente verídico? Por que tantos filmes com histórias absurdas afirmam terem sido baseados em fatos reais? De uma forma ou de outra, o terror não pode ser emporcalhado com os efeitos especiais como o péssimo Arraste-me Para o Inferno (2007), concordam?

 A questão é...Com tantos filmes seguindo esse padrão, por que Atividade Paranormal se tornou esse fenômeno? As pessoas realmente sentem medo assistindo um filme de vagarosos e bocejantes diálogos entre uma universitária e um cara estupidamente chato, só porque de noite algo invisível comete o aterrorizante, enlouquecedor, macabro e satânico sacrilégio de mexer na porra da porta? Elas gritam, choram de pavor com aquele final idiota visto milhões e milhões de vezes em uma verdadeira miríade de curta-metragens de terror que se espalharam pelo You Tube como chagas se espalham pelo corpo de um leproso? Acho que ou esse filme é realmente superestimado ou então Crom concedeu ao aventuresco coração do bárbaro, pirata, espadachim e desbravador que lhes escreve, a virtude de jamais sentir medo, sendo que a segunda hipótese é bem questionável ser for levado em conta que o belo e desconhecido A Profecia dos Anjos (2004, França) despertou um pouco de medo em mim.

 Quanto mais eu penso nesse filme, em sua narrativa vagarosa e chata, nos diálogos ocos, e principalmente na absoluta incapacidade de criar qualquer tensão ou medo, mais irritado eu fico. Ficaria mais assustado, talvez, se o filme fosse de terror...Sacou a ironia? Imagino que sim. Caramba, não é um monte de ruídos e imagens de paredes arranhadas que vão assustar alguém, e sim a atmosfera que Atividade Paranormal foi absolutamente incapaz de criar. Aproveitando o post, gostaria de comentar sobre um filme imensamente superior a esse lixo. Assisti tempos atrás, e talvez por ser testar os limites dos expectadores de forma sagaz demais, caiu no desconhecimento do grande público.

 Poughkeepsie Tapes, lançado em 2007 e dirigido por John Erick Dowdle, é uma viagem nauseante pela trilha de um assassino em série. Pseudodocumentário doentio, que de acordo com o enredo, foi dirigido por um serial killer anônimo que mesclou depoimentos dos policiais que o procuravam e das famílias de suas vítimas com suas próprias filmagens de torturas, uma perturbadora que a outra. Embora eu não tenha achado o filme assustador em hipótese alguma, sua linguagem de imagem é brilhante. Não falo apenas dos cruéis cortes que escondem absolutamente qualquer violência gráfica, nos forçando a imaginar as horríveis artimanhas do protagonista nas nossas próprias atormentadas mentes, nem da excelente atuação, nem da ousadia do roteiro, que despreza qualquer moralidade ou otimismo...E sim da magnífica atmosfera criada por cenas lindamente dirigidas, que oprimem a nossa respiração com o todo o peso da deseperança e da penumbra nelas apresentadas.

 Dowdle também dirigiu Quarentena, remake ianque de Rec, mas não assisti o original espanhol ainda e, embora tenha admirado bastante a competência desse diretor no Poughkeepsie Tapes, confesso que repudio remakes americanos de filmes europeus ou asiáticos de forma geral.

 

Escrito por Cesare Le Grotesque às 19h56
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21/04/2011


Sinfonia da Bravura

 O monomito de Joseph Campbell está tão presente na cultura moderna quanto no tempos dos romances de cavalaria. George Lucas seguiu esse padrão na integra e conseguiu criar uma saga aonde a capacidade de fazer o sangue de um geek ferver no momento em que espaçonaves se chocam e destroem-se com lasers sobrepõe-se a necessidade de um bom enredo.

 Guerra nas Estrelas marcou minha infância. Minha mente infantil era povoada por aquelas navezinhas brilhando no espaço sideral, disparando raios luminosos e mortais...Embora quando eu tinha  7 anos eu me impressionasse com a crueldade de Vader, a nobreza de Skywalker e o cinismo de Solo, Guerra nas Estrela nunca sequer chegou perto de me comover. Os personagens tinham charme, diria até que são saborosíssimos, mas jamais me emocionaram de uma forma um pouco mais profunda.

 O post de hoje é sobre Last Exile, animação da Gonzo Digimation lançada em 2003 e dirigida por Koichi Chigira. A partida de um mundo cotidiano, o chamado à aventura, a provação...Todos os elementos da “Jornada do Herói”de Campbell seguidos na integra como J.K Rowling, como George Lucas seguiram. O que torna Last Exile tão épico enquanto Harry Potter é tão inócuo? O que faz com essa “humilde” série japonesa seja tão mais grandiosa do que a trilogia que mexeu com a cabeça de toda uma geração de nerds?

  Nessa saga steampunk com o visual inspirado no início do século XX, as virtudes e fraquezas dos personagens são trabalhadas de uma forma bonita, até poética. Enquanto Guerra nas Estrelas é simplesmente um festival maniqueísta de mocinhos vencendo bandidos, Last Exile expõe a tragédia da guerra e a humanidade daqueles que querem supera-la. A história foca-se na aventura dos amigos Claus Valca e Lavie Head (fap fap fap), pilotos de vanships (um tipo fictício de aeronave desenhada por Range Murata) que sonham em voar pela Grande Névoa, uma área de risco cujo os fortes ventos implicaram na morte de seus pais. Uma corrida de Vanships acaba sendo interrompida por um piloto abatido por uma nave misteriosa, e na tentativa de ajuda-lo, Claus e Lavie acabam salvando a pequena Alvis Hamilton, que é procurada tanto pelos tripulantes da nave de batalha Silvana quanto pelos enigmáticos corporativistas.   

 Desde o começo o convite que o roteiro traz aos espectadores, acompanhado por técnicas de animação inovadoras e uma trilha sonora que TERÁ que estar na minha coleção, é simplesmente irresistível. Não tão irresistível quanto as questões menores da série; o sonho de Claus e Lavie, as aventuras de Mullin Shetland, a personalidade cômica do macho-chorão Godwin Austin, a obessão mórbida de Alex Row, e acima de tudo a forma como todos esses personagens se relacionam e reagem perante uma guerra entre nações que é interrompida por uma batalha ainda maior, uma contra um inimigo tão imponente quanto cruel.

 

 George Lucas tentou ser profundo nos últimos Star Wars, Last Exile apenas tenta ser sóbrio, sem grandes pretensões mas não deixando grande. O episódio final da série abandonou aquele otimismo artificial da vitória final de Skywalker e se rendeu a uma melancolia realista, que quase me levou aos prantos. Aguardo ansiosamente uma segunda temporada que segundo os estúdios Gonzo, será lançada esse ano! Yeah!

Escrito por Cesare Le Grotesque às 23h12
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09/04/2011


Garras de Besta

 Não sou mais tão fã de animes e mangás como na minha puberdade. Boa parte das coisas feitas nessa área têm enredos desinteressantes, são recheadas de sentimentalismo piegas e raramente me agradam com a parte visual (respeito o estilo mangá como arte, mas simplesmente não é algo que me atrai muito). Perdi muito tempo da minha vida vendo coisas como Chrono Crusade e Samurai Deeper Kyo deixando de lado animes realmente bons, como Darker Than Black, Michiko to Hatchin e Last Exile (que por sinal estou assistindo agora, impressionadíssimo com os combates aéreos, enredo requintado e o clima crescente de aventura. Logo terá sua resenha aqui nesse blog de merda). Bem, abri esse post para falar um pouco sobre uma série que assisti alguns meses atrás, e é tão excêntrica que não pode deixar de ser comentada aqui pelo seu estranho afintrião.

 Se tem algo que realmente me chama a atenção são as coisas perturbadoras. Grotesco é o meu sobrenome, bizarro é a minha filosofia de vida e macabra é a minha essência. Então como se fosse um presente para mim, Masaaki Yuasa e o estúdio Mad House trouxeram em 2006 a série Kemonozume (não falo uma palavra sequer em japonês, mas até aonde eu li significa "garras de besta"). Masaaki é conhecido por seu "estilo livre", ou seja, não limita a sua imaginação quando o assunto é estética, e é por isso não pude deixar de assistir essa insanidade.

 Com traço inspirado na arte-moderna, Kemonozume é uma história de amor entre um caçador de monstros e...Uma monstra. Pois é, e ainda tem gente que acha que Stephanie Meyer tem algum pingo de criatividade, mas tudo bem, tento tornar minha suportável mesmo assim. Continuando a história, Toshihiko, um praticante de uma arte marcial que tem como foco destruir os monstros devoradores de homens conhecidos como shokujinkis (os monstros têm garras gigantes e sua fraqueza é a decepação dos seus braços, daí o título), apaixona-se pela bela Yuka sem saber sobre a sua natureza carniceira. O amor proibido dos dois leva Toshihiko a renegar-se da escola de Kiffuken (a arte marcial supra-citada) mesmo que ele fosse o herdeiro do título de mestre, e foge com Yuka, dando inicio a um road movie surrealista, bonito e recheado de ação.

  Não vou dizer que Kemonozume não é uma bela história de amor e aventura, mas estou um pouco cansado dessas histórias sobre espadachins que caçam monstros; é sempre a mesma coisa, e sou mais fã da crueza contida em Claymore e Berserk. Os personagens coadjuvantes, como Rie, a secretária da escola de artes marciais apaixonada por Toshihiko e Kazuma, irmão de Toshihiko obsecado pela idéia de trazer tecnologia de ponta ao tradicional kiffuken, sem falara no divertido detetive gigante enviado atrás de Toshihiko e Yuka...Todos são construidos muito bem e tratados com bastante sobriedade, assim como casal protagonista (que são Edward e Bella mesmo? Acho que foram merecidamente decapitados por um samurai), o que torna a série quase desprovida de arquétipos. O senso de humor é consideravel, devemos levar em conta que embora Kemonozume seja repleto de imagens perturadoras, é acima de tudo uma doce história romântica.

 Ainda assim o enredo está longe de me impressionar. Kemonozume vale mesmo pelo seu traço magnífico (como dito antes, é baseado no modernismo) que me lembra acima de tudo o artista curitibano Poti Lazzarotto, e pela forma como os objetos e personagens reagem nas cenas aonde é exigida uma animação mais fluída. Hachuras tornam tudo mais bonito, e a trilha sonora jazzística por é simplesmente saborosa. Os efeitos feitos com a animação 3D, que remetem desenhos com giz de cera, e montagens de fotos deixaram tudo melhor ainda!

 Outro ponto bacana do anime são as histórias curtas que aparecem no começo de cada episódio. São histórias recheadas de sexo, canibalismo, bizarrice e contadades em menos de um minuto! Pois é, mas o enredo é recheado de clichês e a história é concluída de uma forma hollywoodiana demais para o meu gosto, assim assim não deixa de ser algo que deve ser visto.

Escrito por Cesare Le Grotesque às 08h51
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08/04/2011


Foda-se

 Por ser simplesmente um desenhista amador, meu mentores costumam fazer com que eu acredite que devo desenhar apenas aquilo que me agrade. Talvez a minha imaginação seja um tanto limitada, mas nada me causa satisfação maior do que produzir merdas que envolvem os personagens fictícios criados por mim. Pois é, vem aí um filme amador chamado Slaughtered Heroine - Um Pulp Metempsicótico, no qual a história da minha "super-heroína" Cesarina Cemitére é reinventada através de uma narrativa "noiresca" e violenta, com clima soturno, enredo cru e personagens que, embora recheados de uma certa secura, não escapam da deliciosa romantização da ficção pulp (ou pop?). Paralelamente a isso, trabalho em uma prosa sobre terroristas psíquicos, assassinos vingativos, cientistas loucos, entidades trancedentais apocalípticas, conspirações militares, lobotomia em paranormais, taurus 357 e é claro, Bruce Argento, outro personagem por mim criado que estrela o futuro filme e mais a série de quadrinhos comentada três posts atrás.

 E é com os meus amados personagens que lhes apresento as minhas últimas dantescas criações, que embora tenham ficado insatisfatórias, deram trabalho demais para não serem postadas aqui.

 

 As letras ilegíveis dizem "traindo o movimento lovecraftiano desde 2006".

 

    Inspirado nas ilustrações que Alessandro Esparza fez sobre o jogo Killer 7.

  Sim, eu sei, ficaram uma bosta, mas prefiro acreditar que todo o trabalho que eu fiz hachurando os tijolos e desenhando as escamas do polvo serviram para alguma coisa...Mesmo que isso seja apenas uma trágica ilusão. Bem, foda-se.

 

Escrito por Cesare Le Grotesque às 23h38
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23/03/2011


A Melancolia do Apocalipse (parte 3)

Não acho que a ação empobreça o filme, muito pelo contrário, a cena na qual Eli (o personagem de Washington) enfrenta sozinho uma gangue inteira com a sua faca, a câmera se mantém imóvel e o combate ocorre em um ponto no qual os personagens são ocultados pela penumbra, fazendo com que eles quase pareceçam sombras empunhando armas de brutalidade esmagadora (estética muito próxima dos animes das décadas de 80 e 90, então vemos a contribuição dos irmãos Watchowsky para o mundo).

   O Livro de Eli pode não alcançar a profundidade e a beleza de A Estrada (o que é de fato algo muito difícil de se fazer), ainda assim traz um questionamento interessante sobre o papel da Bíblia para a cultura ocidental. Eli, o protagonista, protege as escrituras contra Carnegie (Oldman), o fundador de uma cidade que pretende usar as palavras do livro para manipular as pessoas com mais facilidade e estender a sua influência. Eli, que é um cristão devoto, acredita que a Bíblia é uma ferramenta para restaurar a civilização, e que deve ser mantida longe de qualquer um que quer usar o seu conteúdo para o mal. Esse ponto de vista neutro quanto as escrituras questiona tanto o cristãos mais dogmáticos que enxergam os salmos como verdades absolutas quanto os ateus mais fervorosos que, em seu furioso combate ao cristianismo, chegam a negar que a relevância da moral judaico-cristã para a formação da sociedade ocidental...

 ...Ah, sim. Antes que me perguntem qualquer coisa, sou ateu. 


Escrito por Cesare Le Grotesque às 13h17
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A Melancolia do Apocalipse (parte 2)

Por mais que o filme tenha cenas chocantes o suficiente para traumatizar o Fred Krueger (afinal, não é todo dia que vemos pessoas sendo defumadas vivas e depois abatidas como animais), a cenografia é marcante por si só. Basta que aqueles cenários melancólicos, que mostram o fim de tudo o que nós conhecemos, e interpretados por uma fotografia soberba, que essas imagens não saem mais da nossa cabeça. Filme com ritmo vagaroso, sóbrio, poético mas que não deixa de ser tenso em nenhum momento, não são necessários zumbis ou mutantes para que o pós-apocalipse seja assustador, o ser-humano já é monstruoso o suficiente.

  Já em 2010 temos o lançamento de O Livro de Eli, dirigido pelos irmãos Hughes (responsáveis também pelo maravilhoso Do Inferno), estrelado por Denzel Washington, mas que na minha humilde opinião tem a cena roubada por Gary Oldman. Com um estética fotográfica e direção de câmera extremamente parecida com a de A Estrada, temos outra história pós-apoliptica melancólica (dessa vez tivemos sim a Terceira Guerra Mundial), mas com um pouco mais de ação. Sem abandonar a sobriedade e até certa poesia, em O Livro de Eli o protagonista não é mais um homem frágil e sem esperanças como o personagem de Mortesen em A Estrada, e sim um típico anti-herói “quadrinhístico” que ostenta imponentemente estilosos óculos escuros e umas das facas mais fodas que eu já vi (...)

Escrito por Cesare Le Grotesque às 13h16
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