Todas as artes, em toas as décadas dão origem a obras que se tornam seus grandes representantes. Mesmo os quadrinhos, uma das mídias que mais sofreram com um menosprezo particularmente injusto ao longo da história tem, desde o começo do século XX, exemplos do seu grande potencial artístico por parte dos trabalhos de Winsor McCay. É necessária a existência de HQs como Little Nemo e Sandman (já na década de 80) para mostrar aos críticos que uma mídia é muito mais do que a indústria cultural apresenta; quadrinhos são muito mais do que roteiros sem sal sobre super-heróis rasgando os céus com seus vôos rasantes e atirando lasers naqueles que ameaçam o modo de vida americano; quadrinhos são histórias contadas a partir de uma seqüência de eventos gráficos, tal como o cinema, e por isso tem a mesmo potencial artístico que a sétima arte.
A animação é quase tão antiga quanto o cinema em si, Fanstasmagorie de Emile Cohl data de 1918, e por muito tempo essa arte monopolizada pelos estúdios Disney, resultando no conceito pré-fabricado que tudo o que nela é produzido é “desenho para criança”. A democratização da animação tenha talvez sido iniciada pela chegada de algumas produções japonesas no ocidente, que via a animação de um forma maniqueísta; haviam as produções baratas e havia a Disney...Akira estava entre eles na quantidade de frames por segundo, alías, estava apenas um frame abaixo da Disney,e sem duvida conseguiu um resultado ainda mais realista. Quanto tempo levou-se para que fosse possível uma animação israelense ganhar uma estatueta de ouro por Melhor Filme Estrangeiro? Não é então a fluidez dos movimentos o ponto forte do filme a ser comentado nesse post: Planeta Fantástico, um exemplo perfeito de que paralelamente ao que sempre existiu no grande mercado cinematográfico sempre houve a legítima arte.

Planeta Fantástico é uma produção francesa de 1973, e que graças a maestria da direção de René Laloux atingiu um status de “cult quase divino”. Baseado em um romance de Stefan Wull, uma dos maiores autores franceses de ficção científica pulp, Planeta Fantastico conta a história de uma sociedade em uma galáxia far, far away onde os seres humanos, aí chamados de oms, são escravizados pela raça dos draags. Os draags são seres tão colossais que perto deles os seres-humanos são praticamente formigas, e são tratados como tal. Os humanos são oprimidos pela sua incapacidade de expressão, pela sua falta de ciência; são uma raça derrubada pelo que é sugerido como uma grande guerra ou desastre ocorrido na Terra (depois levados pelos draags para o seu planeta natal), uma raça animalesca, que não vive, apenas sobrevive. Os draags, que são incapazes de compreender a complexidade do espírito humano, dedicam-se à tecnologia e à espiritualidade (sendo que uma das suas atividades mais importantes é a meditação transcendental, necessária inclusive para a sua reprodução), vivem em conforto e não deixam de ter os mesmo sentimentos e desejos que os humanos, que eles consideram meras bestas, também tem.
Logo no começo, temos uma mãe e seu filho recém-nascido sendo maltratados por uma criança draag que brinca com eles como uma criança humana brinca com um inseto. É uma cena forte, vemos o ser - humano prestes a ser destruído por algo infinitamente maior e superior a ele, algo como uma força da natureza, destrutiva e inconsciente do mal que causa. A criança draag acidentalmente mata a mulher, e o seu filho torna-se o mascote da jovem Tiva. Ela nomeia o rapaz de Terr, e seguimos então a trajetória do seu amadurecimento.

Os draags adquirem conhecimento através de um aparato que insere informações em seus cérebros, e Terr acaba o utilizando quando tem a chance. Já adolescente, Terr decide fugir da casa de Tiva, e leva o aparato consigo; descobrindo então uma tribo de humanos que mais lembra um formigueiro...Terr os apresenta então a algo a muito esquecido: conhecimento, iluminação, ciência.
À medida que os humanos adquirem conhecimento através do aparato dos draags, eles se engrandecem como sociedade. O filme, que logo de início mais parece lidar com a insignificância da vida humana, mas na verdade é uma ode à humanidade e ao livre pensamento. Lida com temas complexos sem ser godardiano, sem deixar um momento sequer de tornar o enredo interessante; Planeta Fantástico é uma aventura visual, um experiência surpreendente a cada momento.
Obviamente o que me chamou a atenção antes de tudo foi a estética. Nisso o filme é de fato impecável. O fato de ser uma animação “devagar” não tira a beleza dos desenhos, das hachuras, dos volumes criados a partir de pintura manual, dos cenários e animais exóticos que habitam o planeta Ygam, do absoluto surrealismo proveniente de uma mente rica em imaginação puramente artística. Tudo no filme é impecável, a trilha sonora, composta pelo jazzista Alain Gorauguer, contribui de forma magnífica para a estética psicodélica e merece a atenção de qualquer uma que goste de rock progressivo.
Planeta Fantástico conclui-se de uma forma não tão inesperada, mas não sem antes pincelar aqueles belos momentos de tensão que fazem um bom filme, massacrando todo o medo que eu tinha de me decepcionar. É imperdível, isso lhes garanto.